Fábula: O fogo que iluminou um quarto seco

Capítulo 1 — O quarto seco

Ele vivia no coração da cidade.
No vigésimo andar de um prédio alto.
Da janela,
um mar de luzes permanecia aceso
mesmo à noite.

Mas nenhuma daquelas luzes
iluminava o seu coração.

O trabalho era intenso,
os laços humanos frágeis,
e embora o apartamento estivesse impecável,
havia nele uma secura—
como um deserto silencioso.

Todas as noites, ao sentar-se,
um vazio tranquilo se abria em seu peito.
Não era dor.
Apenas a sensação lenta
de que algo faltava.

Nem o celular,
nem os vídeos,
nem a música
preenchiam esse vazio.

Capítulo 2 — A pequena chama

Numa noite,
quase por acaso,
ele adquiriu um lar de mesa.

Um pequeno recipiente de barro,
com cheiro de terra.

Com dúvida,
acendeu a chama sobre a mesa.

Um leve tic.
O fogo se ergueu,
e o ar do quarto vibrou suavemente.

Naquele instante,
ele sentiu um calor lento
penetrar o vazio em seu peito.

O fogo apenas ardia—
mas ele prendeu a respiração.

Capítulo 3 — A memória do vapor

Para aquecer água,
colocou uma pequena panela sobre a chama.

Quando o metal começou a esquentar,
um som suave surgiu—
um som quase impossível de ouvir
num apartamento urbano.

Logo,
pequenas bolhas nasceram no fundo
e subiram devagar,
a superfície tremendo
no ritmo da chama.

Quando o vapor subiu,
o quarto mudou.

A umidade suavizou o ar seco,
e aquele aroma
tocou delicadamente
algo adormecido dentro dele.

— Ah… esse cheiro.

Ele não sabia por quê.
Mas através do vapor,
cenas antigas voltaram.

O fogão da avó.
O estalar da lenha.
As mãos aquecidas diante do aquecedor no inverno.
Uma risada ouvida ao redor de uma fogueira.

Momentos que não voltariam—
mas que o vapor e o fogo
aproximaram um pouco do presente.

Ele aqueceu uma sopa
e observou o vapor subir.

Não era apenas vapor.
Era uma nova forma
do tempo humano que ele havia esquecido.

Ao provar a sopa,
o calor desceu da língua
para a garganta,
e depois para o vazio em seu peito.

Como se o sangue
retornasse a um lugar seco.

Esse calor
despertou suavemente
a sensação de estar vivo.

Capítulo 4 — A noite que se torna úmida

Naquela noite,
ele dormiu profundamente.

Antes de adormecer,
sentiu o vazio em seu peito
encher‑se devagar
com o calor do fogo —
como uma fonte tranquila
ao fim de uma longa jornada.

Na manhã seguinte,
o ar do quarto estava mais suave.

A luz, as sombras na parede —
tudo igual,
e ainda assim diferente.

O vazio não havia desaparecido.
Mas em seu centro,
uma pequena temperatura brilhava,
sustentando o seu dia.

Durante o trabalho,
em pausas breves,
ele lembrava o tremular da chama
da noite anterior.
Só essa lembrança
aprofundava sua respiração.

E à noite,
ele acendeu novamente o lar de mesa.

A chama oscilou como no dia anterior,
fez os mesmos sons —
mas seu calor
chegou um pouco mais fundo.

Olhando o fogo,
algo dentro dele se desatou.
Um fio apertado
se afrouxou lentamente.

Quando percebeu,
uma lágrima escorria por seu rosto.

Não era tristeza.
Nem solidão.

Era apenas o calor
voltando a um lugar seco.

A lágrima caiu devagar,
como se confirmasse aquela presença.

Ele murmurou:

“…Obrigado.”

A palavra não era dirigida a ninguém —
nem ao fogo,
nem a si mesmo,
nem ao passado.

Era apenas
uma gratidão silenciosa
pela temperatura que existia
ali, naquele instante.

A chama oscilou,
devolvendo uma luz suave,
como se acolhesse suas palavras.

E essa luz
desceu tranquilamente
para o fundo do seu peito.