Fábula: O fogo que acende na cozinha à noite

Capítulo 1 — A cozinha em silêncio

Quando a criança finalmente dormiu,
a casa ficou quieta de novo.

Ela apagou as luzes da sala
e ficou de pé na cozinha.

Mais um dia vivido para os outros:
trabalho, casa, cuidados.
Quase nada tinha sido realmente dela.

Diante da pia,
sentiu um pequeno vazio no peito —
não era dor,
era só a sensação silenciosa de
ter ficado para trás em algum ponto do dia.

Capítulo 2 — Um pequeno fogo

Na prateleira,
viu o mini‑kamado,
um pequeno fogareiro de barro
que cabia na palma da mão.

Colocou-o sobre a mesa
e acendeu o fogo.

A chama subiu devagar,
e o ar da cozinha se moveu suavemente.

Naquele instante,
o vazio dentro do peito
ganhou um pouco de temperatura.

Capítulo 3 — O vapor que traz lembranças

Ela encheu uma panelinha com água
e a colocou sobre o fogo.

O metal começou a aquecer,
fazendo um som suave —
mais gentil do que qualquer som do dia.

Logo, pequenas bolhas surgiram,
e o vapor subiu devagar.

O ar da cozinha mudou.
Aquele calor úmido
tocou algo adormecido dentro dela.

— Ah… esse cheiro.

Por trás do vapor,
veio a lembrança da cozinha da mãe:
a luz da tarde,
o cheiro do jantar,
o sorriso no meio do vapor.

Um tempo em que ela ainda era só ela,
antes de ser “alguém para os outros”.

Tomou um gole da sopa quente,
e o calor percorreu o peito,
fazendo o sangue voltar aos lugares secos.

Capítulo 4 — A temperatura que retorna

Naquela noite,
ela respirou fundo como há muito não fazia.

O vazio no peito
foi sendo preenchido
pelo calor do fogo.

Era a sensação esquecida
de voltar para si mesma.

Na manhã seguinte,
a luz da cozinha parecia mais suave.
As tarefas eram as mesmas,
mas no centro do peito
havia um pequeno calor aceso.

À noite,
ela acendeu o mini‑kamado de novo.

A chama entrou um pouco mais fundo.

Uma lágrima escorreu —
não de tristeza,
mas da temperatura que voltava.

Ela sussurrou:
— …Estou de volta.

O fogo balançou suavemente,
como se acolhesse suas palavras.
E a luz dele
se acomodou no fundo do peito dela.